
Jornal O POVO
Quarta-feira - 31-12-2025
Fortaleza - Ceará - Brasil
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A ENGENHARIA DE ILUMINAR PESSOAS
Autor
Carolina Passos
| APRENDER | Paulo Roberto chegou ao Instituto dos Cegos de Fortaleza, em 1997, após o diagnóstico, e redescobriu o papel da arte
Engenheiro eletricista por formação, Paulo Roberto Cândido de Oliveira, 64 anos, construiu uma carreira sólida antes que um diagnóstico genético alterasse seus planos. A perda progressiva da visão central o obrigou a reconsiderar não apenas sua atuação profissional, mas a forma como se percebia socialmente.
No início, o diagnóstico era um segredo guardado sob o medo do preconceito e da desvalorização. "Tinha um alto preconceito, ou seja, achava que as pessoas não iriam me valorizar se soubessem que eu tinha uma deficiência na visão. Isso me fez esconder. Foi até quando eu estava tocando uma obra, que tive oportunidade de avaliar um projeto no sol e precisei levar para o hotel para olhar com a lupa. A partir daquele dia, eu pensei: não posso mais estar disfarçando a situação que tenho", relatou Paulo sobre o momento em que a realidade física atropelou a tentativa de manter as aparências.
A mudança de rota o levou ao Instituto dos Cegos do Fortaleza em 1997. Ali, o que era limitação transformou-se em potência. Paulo percebeu que a arte, que já o acompanhava desde a infância em Juazeiro do Norte, seria o seu novo campo de atuação.
Ele deixou de projetar circuitos elétricos para fundar academias de letras e grupos de maracatu. Entre suas produções literárias, destaca-se o livro "Arco de Retina", no qual registra a história da Academia de Letras que fundou, unindo sua memória pessoal à coletividade.
"Quando eu cheguei aqui no instituto, eu potencializei algo que já tinha. Passei a produzir uma arte da inclusão, onde a própria pessoa com deficiência é protagonista. Coordenei projetos de informática, fundei uma academia de letras formada só por pessoas com deficiência visual, participei do teatro, da música, da literatura. A arte sempre fez parte da minha vida, mas aqui ela se ampliou", detalhou o gestor cultural.
Para Paulo, a deficiência deixou de ser algo a ser ocultado e passou a ser assumida como parte constitutiva de sua identidade. Ele descreve a transição de um modelo de vida invisível para um protagonismo que utiliza a sensibilidade como ferramenta de trabalho e visão.
"Foi quando eu entrei aqui na instituição que percebi que não estava só me adaptando, mas me reconhecendo. Descobri que a minha verdadeira identidade era essa: a pessoa com limitação visual que pode protagonizar, criar, ensinar.
Meus projetos de iluminação hoje não são mais para edifícios, são para iluminar
pessoas", declarou o escritor, evidenciando a mudança de perspectiva sobre sua
própria função social às vésperas de mais um ano.

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